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Low-life - New Order.

Atualizado: Ago 15

Exorcizando o fantasma do Joy Division.



Lançado praticamente no aniversário de cinco anos da morte de Ian Curtis, para muitos da crítica especializada, Low-life é o ponto em que deixaram de ser sobreviventes do pós-punk para se tornarem astros de um novo movimento, techno-rock.


Pessoalmente, discordo de qualquer análise que imponha fronteiras artificiais na evolução do som destes músicos de Manchester, inclusive a separação Joy Division / New Order é, no meu entendimento, mais psicológica do que sónica.


Na minha opinião as diferenças de Unknown Pleasures para Closer, para Movement, para Power Corruption and Lies, para Low-life, para Broterhood, para Technique, para Republic mostram os artistas em constante evolução e sem medo de se arriscar e inovar.


Não que a perda de Ian Curtis não tenha afetado a banda, é claro que afetou, mas a influência de Ian Curtis estava embutida na alma dos demais integrantes e se faria sentir nos lançamentos posteriores. Desta forma, Low-life, no fundo, mostre apenas que o fantasma do nome Joy Division e a tristeza da perda de Ian Curtis tenham finalmente sido exorcizadas.


Construído sobre a primorosa base do álbum anterior, Power Corruption and Lies, Low-life mostra então, longe dos fantasmas passados, uma banda mais focada em um novo caminho, um caminho do qual tivemos um vislumbre dois anos antes com “Blue Monday”. Faixas como “The Perfect Kiss” e “Sub-culture”, que com seus baixos e baterias sintetizados, muita percussão eletrônica e incríveis arpejos de sintetizadores, são clara evolução do caminho sugerido pelo megahit.


O álbum abre com “Love Vigilants”, a música é uma quebra do estilo usual do New Order de várias maneiras. "Love Vigilantes", com inspirações de folk music americana, é decididamente pop, com os típicos ganchos de músicas feitas para agradar o público. A letra, apesar do formato irreverente de contar a história, é no fundo uma tragédia, contando a história de um soldado que volta da guerra apenas para descobrir que sua esposa tinha recebido um telegrama informando de sua morte em combate. Segundo o vocalista, a letra a porta aberta a interpretação do ouvinte, o soldado pode ter de fato morrido e retornado como um fantasma ou o telegrama sido um erro, mas ao retornar, ainda vivo ou apenas em espírito, encara a tragédia de encontrar a esposa, que tinha cometido suicídio, morta com o telegrama na mão.


A segunda faixa, “The Perfect Kiss”, mostra outra concessão em relação ao passado: este seria o primeiro single lançado de um álbum, até então, todos os singles do New Order e do Joy Division eram de músicas que não estavam contidas nos álbuns. A versão do álbum é uma edição de apenas 4:48 versus a original, lançada no single de 12 polegadas, de 8:46 minutos, perdendo a última estrofe e maior parte da fantástica parte instrumental. A versão integral apareceria depois na Collector's Edition lançada em 2008. O vídeo, dirigido por ninguém menos que Jonathan Demme, ganhador do Oscar por Silêncio dos Inocentes, apresenta a banda tocando a música ao vivo em estúdio (versão de 9:29). Segundo Tony Wilson, boss da Factory Records, Demme, planejando um vídeo mais dinâmico, tinha imaginado colocar diversas câmeras filmando Sthephen Morris, baterista da banda, ficando consternado ao descobrir que a bateria era programada.


“At This Time of Night” vai além no mergulho techno, com o baixo sintetizado travado junto a bateria, criando um ritmo quase marcial. Em um show em Tóquio, filmado na época do lançamento do álbum, Barney apresenta a música como “Pumped full of drugs” (título que viria a ser utilizado no lançamento em vídeo do mesmo show), este título alternativo pode ser uma pista do real significado da letra, do relacionamento bipolar com drogas, legais ou ilegais, que por um lado podem facilitar o enfrentamento de dores físicas ou psicológicas, mas que, por outro lado, podem nos alienar e privar de real contato com a realidade e entes queridos.


Se “At This Time of Night” é dark,“Sunrise” é quase claustrofóbica. A introdução, com teclado sombrio, seguida do impressionante riff de baixo que guia quase a música toda (sendo modificado apenas no final por outro mais desesperador), mostra o que poderia ser se o New Order tivesse seguido o caminho de Closer. Baterias pesadas e vocais angustiados fazem desta faixa um perfeito exemplo de darkwave. A letra gera diversas interpretações, a mais simples, um desabafo de um cristão que perdeu a fé, (“Your name might be God but you don't say that much to me”) seria subestimar a capacidade lírica da Banda. Talvez esteja lendo demais entre as linhas, mas se Low-life é o exorcismo do Joy Division, “Sunrise” seria uma catarse da raiva e frustração por Ian (o “God” da música) tê-los abandonado (“As we spend our days together, nothing could go wrong / No one told the truth about it because it was so strong”), o grito final de uma banda que lutou através da perda e da dor, da comparação injusta com um deus idealizado, para encontrar afirmação e o auto respeito merecidos.

Cada mídia tem suas vantagens e desvantagens, na época de lançamento de Low-life o CD ainda representava pouco nas vendas de música e, fosse em vinil ou em cassete, era necessário o ouvinte se levantar e literalmente trocar o lado. Isto gerava uma quebra de continuidade que poderia ser ruim em certos casos, onde havia uma necessidade de criar um contínuo, como na música clássica, mas poderia levar a decisões estratégicas para estabelecer o ambiente ou o sentimento do ouvinte.


Esta estratégia foi bem utilizada em Low-life, tendo o lado A saido de uma canção pop para ir crescendo em ritmo e tornando-se sombria em sentimento, finalizando com uma grito, o lado B abre com luz e esperança.


Se a banda descarregou sua raiva em “Sunrise”, “Elegia” por outro lado foi composta, literalmente, como uma elegia a Ian Curtis. A faixa instrumental segue um estilo de composição quase erudito, com um compasso de 12/8, completamente fora dos padrões da música pop, a composição por vezes passa uma sensação de ser uma valsa etérea, reflexiva e espiritualmente em paz. Talvez a forma, que palavras não conseguiriam descrever a altura, de dizer que apesar de tudo que aconteceu e por tudo que aconteceu, nós te amamos e admiramos.


A faixa, que foi gravada praticamente ao vivo, existe em duas versões, uma editada de quase cinco minutos, lançada no álbum, e a versão integral, sem edições ou ajustes de 17:29, que foi lançada 17 anos após no caixa Retro. Assim como a versão integral de “The Perfect Kiss”, a versão completa de “Elegia” está disponível na Collector's Edition de Low-life.


“Sonner Than You Think” é a segunda das três músicas pop do álbum, com instrumentação padrão, o New Order mostra que poderia muito bem brilhar como astros indie, como contemporâneos The Smith, Psychedelic Furs e outros. Talvez esteja novamente enxergando muito onde há pouco, mas a letra, com frases como “Well we had a party in our hotel last night / It ended up in an awful fight / My friend left me and my heart too / I hope I don't end up like you” pode mostrar o crescente atrito entre Barney e Peter.

“Sub-culture” foi o Segundo single tirado do álbum, através de um remix tão controverso feito por John Robbie, que Peter Saville, responsável pela arte de todos os lançamentos do New Order e Joy Division simplesmente se recusou a realizar a arte dizendo que o remix da faixa era indigno de seus talentos. O fracasso do remix, que teve a intenção de deixar a música mais dançante, fica ainda mais evidente pelo fato que os clubs londrinos preferiam tocar a versão original que a versão “dançante”.


Sendo o remix a versão lançada na coletânea Substance 1987, a música pode ter sido injustamente estigmatizada pela sobre-exposição da versão errada, visto que a original é uma pulsante faixa, novamente mostrando o potencial da combinação de baixos e baterias pré-programados com os incríveis riffs de baixo tocados por Peter Hook e os teclados de do casal Gillian e Stephen.


“Face UP”, a terceira música pop do disco é uma música que encontrou, com a reflexão de relações que são ou podem se tornar emocionalmente abusivas ou de ressentimentos causados pelo desgaste do tempo (“Oh, how I cannot bear the thought of you”), reverberação na alma de muitos fãs que se identificaram com a história. Mas, se o posicionamento de “Elegia” parece uma decisão estratégica para mudar o clima entre o lado A e o lado B, a escolha de uma música pop “simples” para fechar o álbum, principalmente depois de “Sub-culture” parece, infelizmente, ser um tremendo erro, gerando um anticlímax que deixa o ouvinte ao final do álbum querendo mais.


E talvez seja este o maior defeito de Low-life, ficamos com o desejo de querer mais.

A arte:


Peter Saville sempre elevou a criação dos projetos gráficos da Factory a níveis artísticos. Sua recusa a se curvar a padrões comerciais, além de atrasar diversos lançamentos da gravadora por estrarem esperando ele finalizar a arte, criou situações extremas como um pôster que ficou pronto apenas após o evento e um single da principal banda da gravadora ficar sem arte gráfica.


Mas não há como negar que conceitualmente seus designs são fantásticos. Para Low-life, o conceito utilizado era se concentrar nas pessoas que estão por trás da arte, e o foco são as pessoas, não a banda. Pela primeira e única vez fotos dos integrantes da banda, individualizados e distorcidos, aparecem na capa. Fugindo ao padrão preestabelecido de arte estática, a capa do disco era mutável: Sobre uma capa semitransparente com o nome da banda na frente e informações sobre o álbum atrás, haviam quatro fotos individuais dos integrantes. Estas fotos podiam ser reconfiguradas ao gosto do fã, decidindo qual foto ficaria na capa, na contra capa e quais ficariam internos. Infelizmente, fora do Reino Unido, poucas gravadoras, procurando reduzir custos, seguiram a arte original, preferindo fazer uma capa comum, com arte estática.

Collector's Edition:


Lançada em 2008, a Collector's Edition expandindo a experiência com outras músicas compostas na mesma época, mas lançadas em outros discos, remixes e out-takes:


  1. "The Perfect Kiss" (12″ version) 8:49: Versão completa da música originalmente lança da no single de 12 polegadas. Primeira vez disponível da forma digital, visto que a versão do CD de Substance 1987 era levemente editada (8:02).

  2. "Sub-culture" (John Robie remix) 7:27: Controverso remix da faixa.

  3. "Shellshock" (Substance edit) 6:28.

  4. "Shame of the Nation" (12″ version) 7:55

  5. "Elegia" (full version) 17:29: Originalmente disponível apenas no disco extra (disco 5) do boxset Retro.

  6. "Let's Go" 3:44: Versão da trilha sonora do filme Salvation!, diferente da versão disponível na coletânea Best of New Order

  7. "Salvation Theme" 2:18: Tema do filme Salvation!

  8. "Dub Vulture" 7:57: Versão instrumental do controverso remix de Sub-culture.


O vídeo de The Perfect Kiss captura a banda tocando a música ao vivo em estúdio e foi dirigido pelo ganhador do Oscar Jonathan Demme.


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